Podes desfazer-te de tudo,
Até das essências do teu coração.
Podes soprar a saudade
Num forte gesto de emoção
Nada vale a pena o que possas fazer,
Nada te alisa o vinculo do passado.
Da terra mãe que te viu nascer
A alma contem o assento rendilhado
Com letras perfumadas de frutos e flores
Das acácias, mangas ….. tamarindos…
Num quadro feliz e multicolor
Daquelas tardes de fim de dias estivais
Quando nuvens fecham o sol em tons lindos
Entre momentos silenciosos e celestiais.
terça-feira, 14 de junho de 2011
segunda-feira, 7 de março de 2011
A TOURADA
..as verónicas e as chicuelinas já circulavam no pensamento dos aficionados e falavam delas com naturalidade..as mulheres que nunca tinham ouvido falar dessas feminidades andavam preocupadas... mas quem serão?
O redondel lá para os lados do matadouro municipal, ia crescendo incorporado de madeiras exóticas de primeira da região... luxo dos luxos que muitas mobílias gostariam de “vestir”.. fortes e rijas de tons variados, iriam servir de assento “aos esculturais” das beldades da terra, a sensualidade feminina, bem mereciam a qualidade do repouso. Os trajos fizeram movimentar as modistas, ansiosas de acontecimentos e ávidas em fazer algo de diferente, rebuscando nas revistas mais conceituadas.
A cabeça de cartaz prometia. – El Matador Jose Trincheira – acompanhado com quadrilha de capinhas e bandarilheiros experientes , que vestidos a rigor “trajes de Luces” e andar gingão, emprestavam ao ambiente um verdadeiro ar de festa brava. A ganadaria Aguiar, era da terra, previamente treinada e espicaçada, era onde residia a dúvida. Mais bois que touros, animais do mato..do mato livre, iriam ficar certamente aterrorizados com o redondel e a praça que lhe cortava o horizonte...
Dizia o entendido, que até se intitulava ex-forcado da Chamusca... “com tanta gente os garraios vão se espevitar e investir com força em tudo o que se mexer.. não se esqueçam que são bichos do mato”
Foi uma gala a entrada, cortejo de gente vestida á maneira,com muito salero, onde não faltaram os lenços, xailes, chapeus de copa raza bem á alentejana, flores....... prometia.
O homem do clarim, sargento da CaçTete, oferecido para o evento... soprou as notas de abrir o curro e saida ...a fera apareceu, lançou-se na arena e estancou, como se em frente deparasse com a missão de Boroma... ficou triste e quedo que nem um embondeiro. Numa azafama sem parar os bandarilheiros bem tentaram enfurecê-lo.. sentia a picada, mas movimentar-se só como os ponteiros do relógio
A praça aplaudia o novilho e ria em uníssono. Zé Trincheira, calipolense de gema, fez tudo para que houvesse investidas... está bem está... reduzido aos seu espaço o quadrúpede não arredava pata. Inspirado um capinha conseguiu que ele se mexesse. Vamos ter tourada.. e tivemos mesmo, o animal fugia do toureiro em direcção contrária quem por lá tivesse fugia do touro..
-Substituam o boi!! Gritava a assistência. Assim acontecia, salvo erro cinco vezes, nenhum dos seguintes foi melhor que o primeiro.
De corrida passou a garraiada e era ver os capinhas (peões de breca), bandarilheiros, voluntários e até o Zé passaram a forcados( o tal ex-Chamusca desapareceu) e para completar o espectáculo, e merecerem alguns aplausos que os novilhos levaram, pegaram á cernelha..... e tantos eram que quase o levaram ao colo. Mas o orgulhoso do mato, não baixou a cabeça ,por mais força que fizessem.
Ficou a festa e todo o ambiente que se gerou. A companhia taurina desapareceu e não pagou nada a ninguém e também nada viram de verónicas e chicuelinas as curiosas preocupadas...
Estávamos no ano de mil novecentos e setenta da nossa era tetense....
O redondel lá para os lados do matadouro municipal, ia crescendo incorporado de madeiras exóticas de primeira da região... luxo dos luxos que muitas mobílias gostariam de “vestir”.. fortes e rijas de tons variados, iriam servir de assento “aos esculturais” das beldades da terra, a sensualidade feminina, bem mereciam a qualidade do repouso. Os trajos fizeram movimentar as modistas, ansiosas de acontecimentos e ávidas em fazer algo de diferente, rebuscando nas revistas mais conceituadas.
A cabeça de cartaz prometia. – El Matador Jose Trincheira – acompanhado com quadrilha de capinhas e bandarilheiros experientes , que vestidos a rigor “trajes de Luces” e andar gingão, emprestavam ao ambiente um verdadeiro ar de festa brava. A ganadaria Aguiar, era da terra, previamente treinada e espicaçada, era onde residia a dúvida. Mais bois que touros, animais do mato..do mato livre, iriam ficar certamente aterrorizados com o redondel e a praça que lhe cortava o horizonte...
Dizia o entendido, que até se intitulava ex-forcado da Chamusca... “com tanta gente os garraios vão se espevitar e investir com força em tudo o que se mexer.. não se esqueçam que são bichos do mato”
Foi uma gala a entrada, cortejo de gente vestida á maneira,com muito salero, onde não faltaram os lenços, xailes, chapeus de copa raza bem á alentejana, flores....... prometia.
O homem do clarim, sargento da CaçTete, oferecido para o evento... soprou as notas de abrir o curro e saida ...a fera apareceu, lançou-se na arena e estancou, como se em frente deparasse com a missão de Boroma... ficou triste e quedo que nem um embondeiro. Numa azafama sem parar os bandarilheiros bem tentaram enfurecê-lo.. sentia a picada, mas movimentar-se só como os ponteiros do relógio
A praça aplaudia o novilho e ria em uníssono. Zé Trincheira, calipolense de gema, fez tudo para que houvesse investidas... está bem está... reduzido aos seu espaço o quadrúpede não arredava pata. Inspirado um capinha conseguiu que ele se mexesse. Vamos ter tourada.. e tivemos mesmo, o animal fugia do toureiro em direcção contrária quem por lá tivesse fugia do touro..
-Substituam o boi!! Gritava a assistência. Assim acontecia, salvo erro cinco vezes, nenhum dos seguintes foi melhor que o primeiro.
De corrida passou a garraiada e era ver os capinhas (peões de breca), bandarilheiros, voluntários e até o Zé passaram a forcados( o tal ex-Chamusca desapareceu) e para completar o espectáculo, e merecerem alguns aplausos que os novilhos levaram, pegaram á cernelha..... e tantos eram que quase o levaram ao colo. Mas o orgulhoso do mato, não baixou a cabeça ,por mais força que fizessem.
Ficou a festa e todo o ambiente que se gerou. A companhia taurina desapareceu e não pagou nada a ninguém e também nada viram de verónicas e chicuelinas as curiosas preocupadas...
Estávamos no ano de mil novecentos e setenta da nossa era tetense....
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
ARTE
Os trabalhos em pau preto, eram muito procurados para levar como recordação. Tete, não tinha um centro onde os artesãos os pudessem comercializar . O candeeiro em trança , a bengala, o terço, o cinzeiro de pé alto , cama de efeitos torneados ao gosto do comprador e muitos outros utensílios.
Havia um artefacto que me enchia as medidas.
A aldeia indígena.
Já não me lembro de quantas peças era composta ou se havia uma quantidade padrão. Sei que eram muitas; a palhota, pilão, copos, a palmeira, panela de trempe , a cadeira de encosto e o banco de pé alto; os tambores e os animais; parte da fonte de sustento da aldeia. Eu tinha uma , com as vicissitudes da vida se foi desmembrando ... Restam-me tão poucas que os guardo , não como um “recuerdo”, mas como objectos de arte. Arte porque tudo era feito sem as máquinas de agora, manuseada, em esforço, com engenhos rústicos e onde não faltava imaginação .Reprodução do comum que fazia parte da aldeia.
Havia um artefacto que me enchia as medidas.
A aldeia indígena.
Já não me lembro de quantas peças era composta ou se havia uma quantidade padrão. Sei que eram muitas; a palhota, pilão, copos, a palmeira, panela de trempe , a cadeira de encosto e o banco de pé alto; os tambores e os animais; parte da fonte de sustento da aldeia. Eu tinha uma , com as vicissitudes da vida se foi desmembrando ... Restam-me tão poucas que os guardo , não como um “recuerdo”, mas como objectos de arte. Arte porque tudo era feito sem as máquinas de agora, manuseada, em esforço, com engenhos rústicos e onde não faltava imaginação .Reprodução do comum que fazia parte da aldeia.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
DA CHEGADA ..... Á PARTIDA
.....quando cheguei a cidade surpreendeu-me .Julgava que ia encontrar um bosque de palhotas de caminhos pedregosos e esburacados. Iria morrer de calor e pouco ou nada de conforto estaria á minha espera. Quando a avistei pela primeira vez ,do lado de lá, no Matundo, a minha visão precoce caiu por terra .
Vi corridinho de casas brancas, a torre da igreja um cenário bonito e acolhedor. Perante cenário inesperado a minha curiosidade foi descobri-la. descobrir a pequena cidade de ruas rectilíneas , enfeitada de acácias rubras casada com o rio , alegre e pacifica.
As pessoas, fosse qual fosse a cor e credo, eram amáveis e sabiam receber com simpatia ,a que por vezes não se conseguia corresponder.A sorte de ficar instalado mesmo no coração da cidade obrigava-me a um quotidiano de vizinho .O comercio era ali mesmo . Muito indiano e europeu , nenhum africano.
Cinemas um que tinha sido inaugurado no primeiro semestre de 63 , o Santiago . Clubes três mas o mais concorrido era o Sporting ou clube de baixo como era conhecido. Dois hotéis , Tete e Zambeze , este em construção faseada ,com a parte acabada em funcionamento era lugar de convívio .Bancos um o BNU .
Na educação, escolas primárias, não havia secundárias apenas um colégio particular religioso das Irmãs de S. José de Cluny.A maioria da juventude tetense . quem escola primária frequentasse, ficava por aí. Só a partir da classe mais afortunada poderia colocar os filhos no único colégio ou numa outra cidade.
Sentia-se a necessidade absoluta de abertura de ensino secundário publico.
A maioria das ruas por asfaltar soltavam o pó que encasulava a cidade, com temperaturas elevadíssimas tornava-a a mais quente do país e conhecida "cidade inferno cemitério de branco". Contrariava isto o residente com "quem bebe água do zambeze" fica e se partisse jamais esqueceria a cidade ainda gaiata.
Gaiata porque as perspectivas de crescimento estavam no projecto Cahora Bassa.Quando o grande paredão começou a erguer-se o "boom" aconteceu. A cidade gaiata começou a tornar mulher. A sua expansão foi em todos os domínios.
Proliferaram as agências bancárias (6), bares e cabarets; restaurantes e cafés; cinemas, boutiques e comercio em geral. Os vários andares dos prédios modificavam a paisagem e vivendas ajardinadas ornamentavam o espaço. As ruas asfaltadas abrandaram o pó.As margens do rio,alma tetense, ficaram ligadas com a ponte.
Cresceu em todas as direcções e tornou-se mais senhora e humana com a abertura do ensino secundário publico.....
.........os acontecimentos políticos não me deixaram vê-la na metamorfose seguinte, fiquei com o gosto de gostar dela, mas olhei para trás sentido......
Vi corridinho de casas brancas, a torre da igreja um cenário bonito e acolhedor. Perante cenário inesperado a minha curiosidade foi descobri-la. descobrir a pequena cidade de ruas rectilíneas , enfeitada de acácias rubras casada com o rio , alegre e pacifica.
As pessoas, fosse qual fosse a cor e credo, eram amáveis e sabiam receber com simpatia ,a que por vezes não se conseguia corresponder.A sorte de ficar instalado mesmo no coração da cidade obrigava-me a um quotidiano de vizinho .O comercio era ali mesmo . Muito indiano e europeu , nenhum africano.
Cinemas um que tinha sido inaugurado no primeiro semestre de 63 , o Santiago . Clubes três mas o mais concorrido era o Sporting ou clube de baixo como era conhecido. Dois hotéis , Tete e Zambeze , este em construção faseada ,com a parte acabada em funcionamento era lugar de convívio .Bancos um o BNU .
Na educação, escolas primárias, não havia secundárias apenas um colégio particular religioso das Irmãs de S. José de Cluny.A maioria da juventude tetense . quem escola primária frequentasse, ficava por aí. Só a partir da classe mais afortunada poderia colocar os filhos no único colégio ou numa outra cidade.
Sentia-se a necessidade absoluta de abertura de ensino secundário publico.
A maioria das ruas por asfaltar soltavam o pó que encasulava a cidade, com temperaturas elevadíssimas tornava-a a mais quente do país e conhecida "cidade inferno cemitério de branco". Contrariava isto o residente com "quem bebe água do zambeze" fica e se partisse jamais esqueceria a cidade ainda gaiata.
Gaiata porque as perspectivas de crescimento estavam no projecto Cahora Bassa.Quando o grande paredão começou a erguer-se o "boom" aconteceu. A cidade gaiata começou a tornar mulher. A sua expansão foi em todos os domínios.
Proliferaram as agências bancárias (6), bares e cabarets; restaurantes e cafés; cinemas, boutiques e comercio em geral. Os vários andares dos prédios modificavam a paisagem e vivendas ajardinadas ornamentavam o espaço. As ruas asfaltadas abrandaram o pó.As margens do rio,alma tetense, ficaram ligadas com a ponte.
Cresceu em todas as direcções e tornou-se mais senhora e humana com a abertura do ensino secundário publico.....
.........os acontecimentos políticos não me deixaram vê-la na metamorfose seguinte, fiquei com o gosto de gostar dela, mas olhei para trás sentido......
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
AS CANGARRAS DE TETE
…a galinha-do-mato tem que vir em cangarra se não, não é galinha-do-mato. Sempre que, o Luís nosso mecânico, ia a aldeia, para os lados do mazoi, regressava com a ginga tão carregada que nem carreira “dos caminho-de-ferro” e na cangarra bem amarrada atrás lá vinham duas ou três galinhas de bico aberto e goela seca, abafadas com todas as quitandas por cima. Os ramos que a compunham e as “tambalas” que amarravam formavam o entrelaçado engenhoso que faz do objeto uma preciosidade regional. Os design do feitio era de acordo com a criatividade e gosto do artesão. Redondas ovais ou mais ou menos bicudas serviam perfeitamente para o transporte das galinhas, por vezes não se redimensionava o tamanho á quantidade, tornando-a um transporte coletivo e apertadinho. Bem cacarejavam e esperneavam mas não valia de nada o esforço, porque a tambala não cedia. Soltas no galinheiro era vê-las a “desembrulharem-se” em direcção á água numa sofreguidão tormentosa.
Objecto singular mas de tanta utilidade que dá para transportar os mais variados pertences. A sua configuração ajuda, a amarração á ginga, e também ao transporte manual , não faltam “ pegas” . Não lhe chamem mala, porque certamente não vai gostar, a mala ficaria enobrecida se lhe chamassem cangarra. A mala é feita por máquina industrial , a cangarra é a” máquina” humana de mãos calejadas com produtos da natureza .O espírito com que é manuseada é particularmente só de ajuda, para servir e não para ser comercializada. (talvez possa vir a ser, em miniatura ,um objeto regional para turista). Sempre gostei das cangarras e até pintadas , tons de verde espalhadas por cantos do jardim com flores a crescerem por meio, iluminadas interiormente projetavam no local aspectos de beleza curiosa. Havia quem as inferiorizasse. Não sabiam dar valor ao que valor tem.
•Gostava de ver a chegada dos barcos do Zambeze, que o tempo levou, carregados de gente e de montões de cangarras , cada uma com sua utilidade, que eram atiradas para a margem ,onde águas do rio não chegasse. Cada um levava a sua , num hábito típico da região. Gostava de ver as gingas, carregadas com pares de cangarras amarradas , do aldeão que vinha vender galinha á cidade e já sem espaço ainda cabia o filho mwana que vinha ajudar no negócio. Gostava de as ver perfiladas com o galináceo dentro á espera de comprador.
......................." galinha á cafreal" sabia melhor se galinha saísse da cangarra…
Objecto singular mas de tanta utilidade que dá para transportar os mais variados pertences. A sua configuração ajuda, a amarração á ginga, e também ao transporte manual , não faltam “ pegas” . Não lhe chamem mala, porque certamente não vai gostar, a mala ficaria enobrecida se lhe chamassem cangarra. A mala é feita por máquina industrial , a cangarra é a” máquina” humana de mãos calejadas com produtos da natureza .O espírito com que é manuseada é particularmente só de ajuda, para servir e não para ser comercializada. (talvez possa vir a ser, em miniatura ,um objeto regional para turista). Sempre gostei das cangarras e até pintadas , tons de verde espalhadas por cantos do jardim com flores a crescerem por meio, iluminadas interiormente projetavam no local aspectos de beleza curiosa. Havia quem as inferiorizasse. Não sabiam dar valor ao que valor tem.
•Gostava de ver a chegada dos barcos do Zambeze, que o tempo levou, carregados de gente e de montões de cangarras , cada uma com sua utilidade, que eram atiradas para a margem ,onde águas do rio não chegasse. Cada um levava a sua , num hábito típico da região. Gostava de ver as gingas, carregadas com pares de cangarras amarradas , do aldeão que vinha vender galinha á cidade e já sem espaço ainda cabia o filho mwana que vinha ajudar no negócio. Gostava de as ver perfiladas com o galináceo dentro á espera de comprador.
......................." galinha á cafreal" sabia melhor se galinha saísse da cangarra…
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
A CAROEIRA
""Logo a jusante de Murura e da foz do Inhaduze, apresenta-se, como parede quasi inaccessivel, a montanha Nhamarongo, que dá o seu nome a quasi toda a cordilheira, e que no cume que ahi forma, dominando as ilhas de Moçambique e Carmanamano, terá talvez i 5o a 200 metros de altitude sobre o nivel do Zambeze. Este ponto de vista é admirável, e o panorama que d'elle se desenrola aos olhos do viajante é magestoso e grande : para o norte as viridentes e bem vestidas serras do Sungo; para o sul os diver-
sos pincaros da Nhamarongo e as suas encostas despenhando-se rápidas sobre o valle do Inhaduze; para sudoeste o valle d'este rio e o paiz de Inhaquiro, chei(como quasi toda esta região) de emmaranhadas matas de macieiras espinhosas, entre as quaes avulta um ou outro soberbo baobab ou molambeira (adansonia digitata), alguns magníficos mitondos, tamarindeiros, etc. ; para oeste e oes-noroeste o curso quasi recto e prateado do Zambeze, com os seus brilhantes areaes até Massangano; e no fundo as serras Pinga do Marango, Caroeira, etc.""Rel Mil 1887-ArqNac
…ninguém pode chegar a Tete que lhe não bata a Coroeira pela frente. Quem do aeroporto chegue, lá está ela do outro lado do rio, altaneira , protectora de pompa formosura e num recorte bem contornado , que lhe dá um carisma emblemático e poderoso. Veste-a uma vegetação própria da savana donde nascera do chão há milénios. Talvez tenha sido baluarte de qualquer civilização bantu, que não ficou na história.Da história do tetense do meu tempo, ninguém a tira. Vaidosa sabe que tem valor. Protegendo a cidade gaiata envolve-a de montes , abraçando-a que o Zambeze ciumento , afagando-lhe os braços , completa o abraço. Que quadro maravilhoso, singelo , naturalmente único !. Acolhia sem cerimónias os pic.nics dos Tetenses e apesar de pobre ,sempre oferecia uma sombra,fugindo das micaias, onde se pudesse estender a toalha e todas as vitualhas . O gosto estava no cheiro das iguarias que refinavam o paladar antes do garfo começar a sua missão . As bebidas tiradas da geleira e transportadas em caixas térmicas improvisadas, pesavam menos que o gelo que transportavam. Eram, a Fanta e a Coca-cola ,as rainhas da festa . A laurentina até se sentia mal e a manica quase se encolhia pois estavam em segundo plano dado o feminino dominar o convívio.O Vinto era mais p´rá criançada que ficava com os lábios pintados. Por mim a manica, talvez pelo nome indicar proximidade , temperava-me as forças e até me ajudava a afinar a voz em coro improvisado .O calor ajudava o consumo numa de animar o espírito , ao som duma kuela ou marrabenta, que o gravador de fita emitia ,a bom ritmo, enquanto as pilhas resistiam ou o gira-discos mandado vir de Blantyre ou Salisbury ,por ser mais barato, por vezes a agulha pulava ,no retorcido do disco , apanhado por calorão .
….mas quem preferisse explorá-la ,num passeio turístico, seguiria depois da Clara, via acima, piso alcatroado, no meio da chapada nas curvas e contra-curvas mais apertadas ,era o sito mais verdejante do percurso. Chegado ao cimo a paisagem é deslumbrante(consta que em tempos havia um restaurante, deveria de ser soberbo?!!)No sopé , o Vale das Donas ou Nhatanda, prefiro chamar-lhe Nhatanda, barra de capulana verde onde o seu sartanejo acaba e começa a cidade. Airosa, rectilínea,mistura de antigo e moderno, com as acácias rubras floridas e o Zambeze depois de a acariciar, corre desalmadamente sustentando o orgulho por aqui passar.No horizonte uma pintura matizada de lindas cores onde os embondeiros do Chingodzi e Revuboé eram o supremo caracterizante do encanto. O gosto da descida.pelo lado contrário, era bem diferente .Picada pura ,picada onde a cada planalto , uma paragem e admirar as diferenças paisagisticas que se vão sucedendo. O Chimadzi com uma réstia de corrente acompanha, pelo lado esquerdo , até se encontrar a estrada que vai para Boroma. Nasce bem lá no cimo da serra e desde aos trambolhões pela encosta até ao Zambeze, em tempo de chuvas apesar de pouco extenso, transborda e inunda o antigo aeroporto que servia a cidade.… passeio acaba quando sentados no esplanada do Almadia á beira do Zambeze tentamos ver a Caroeira dali em toda a sua grandiosidade, mas a velhaca da cidade diz que primeiro está ela e pouco nos descortina para a olhadela.Na circunstância a serra é mais generosa.
sos pincaros da Nhamarongo e as suas encostas despenhando-se rápidas sobre o valle do Inhaduze; para sudoeste o valle d'este rio e o paiz de Inhaquiro, chei(como quasi toda esta região) de emmaranhadas matas de macieiras espinhosas, entre as quaes avulta um ou outro soberbo baobab ou molambeira (adansonia digitata), alguns magníficos mitondos, tamarindeiros, etc. ; para oeste e oes-noroeste o curso quasi recto e prateado do Zambeze, com os seus brilhantes areaes até Massangano; e no fundo as serras Pinga do Marango, Caroeira, etc.""Rel Mil 1887-ArqNac
…ninguém pode chegar a Tete que lhe não bata a Coroeira pela frente. Quem do aeroporto chegue, lá está ela do outro lado do rio, altaneira , protectora de pompa formosura e num recorte bem contornado , que lhe dá um carisma emblemático e poderoso. Veste-a uma vegetação própria da savana donde nascera do chão há milénios. Talvez tenha sido baluarte de qualquer civilização bantu, que não ficou na história.Da história do tetense do meu tempo, ninguém a tira. Vaidosa sabe que tem valor. Protegendo a cidade gaiata envolve-a de montes , abraçando-a que o Zambeze ciumento , afagando-lhe os braços , completa o abraço. Que quadro maravilhoso, singelo , naturalmente único !. Acolhia sem cerimónias os pic.nics dos Tetenses e apesar de pobre ,sempre oferecia uma sombra,fugindo das micaias, onde se pudesse estender a toalha e todas as vitualhas . O gosto estava no cheiro das iguarias que refinavam o paladar antes do garfo começar a sua missão . As bebidas tiradas da geleira e transportadas em caixas térmicas improvisadas, pesavam menos que o gelo que transportavam. Eram, a Fanta e a Coca-cola ,as rainhas da festa . A laurentina até se sentia mal e a manica quase se encolhia pois estavam em segundo plano dado o feminino dominar o convívio.O Vinto era mais p´rá criançada que ficava com os lábios pintados. Por mim a manica, talvez pelo nome indicar proximidade , temperava-me as forças e até me ajudava a afinar a voz em coro improvisado .O calor ajudava o consumo numa de animar o espírito , ao som duma kuela ou marrabenta, que o gravador de fita emitia ,a bom ritmo, enquanto as pilhas resistiam ou o gira-discos mandado vir de Blantyre ou Salisbury ,por ser mais barato, por vezes a agulha pulava ,no retorcido do disco , apanhado por calorão .
….mas quem preferisse explorá-la ,num passeio turístico, seguiria depois da Clara, via acima, piso alcatroado, no meio da chapada nas curvas e contra-curvas mais apertadas ,era o sito mais verdejante do percurso. Chegado ao cimo a paisagem é deslumbrante(consta que em tempos havia um restaurante, deveria de ser soberbo?!!)No sopé , o Vale das Donas ou Nhatanda, prefiro chamar-lhe Nhatanda, barra de capulana verde onde o seu sartanejo acaba e começa a cidade. Airosa, rectilínea,mistura de antigo e moderno, com as acácias rubras floridas e o Zambeze depois de a acariciar, corre desalmadamente sustentando o orgulho por aqui passar.No horizonte uma pintura matizada de lindas cores onde os embondeiros do Chingodzi e Revuboé eram o supremo caracterizante do encanto. O gosto da descida.pelo lado contrário, era bem diferente .Picada pura ,picada onde a cada planalto , uma paragem e admirar as diferenças paisagisticas que se vão sucedendo. O Chimadzi com uma réstia de corrente acompanha, pelo lado esquerdo , até se encontrar a estrada que vai para Boroma. Nasce bem lá no cimo da serra e desde aos trambolhões pela encosta até ao Zambeze, em tempo de chuvas apesar de pouco extenso, transborda e inunda o antigo aeroporto que servia a cidade.… passeio acaba quando sentados no esplanada do Almadia á beira do Zambeze tentamos ver a Caroeira dali em toda a sua grandiosidade, mas a velhaca da cidade diz que primeiro está ela e pouco nos descortina para a olhadela.Na circunstância a serra é mais generosa.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
PINGOS DE HISTÓRIA "pedras choradas"
sábado, 26 de dezembro de 2009
PINGOS DE HISTÓRIA "tempero de bredos"
´....descobrindo aos poucos o passado que fez historia..
(...) q.’ he milho, e legumes, e por Conduto uzão de ordinario de Carne de Caça, q.’ fazem aSsada ou Cozida, Sem mais adubos, e Com igual tempero de bredos, quando aquella Não tem, e na falta de tudo, Se Contentão com hum pouco de Sal. (...) De dous modos preparão a Comida de milho, mixoeira, e talves arroz; huãs Vezes o fazem a modo de arros cozido, q.’ chamão Inhafaca, e outras reduzindo-o a farinha Cozida, formão della pelouros, q.’ chamão Sima. Tambem dos mesmos mantimentos fazem a Sua bebida, q.’ chamão Badúa, ou Pombe, que Cá Se assemélha a birá no gosto; mas tem mais Consistencia
(...) q.’ he milho, e legumes, e por Conduto uzão de ordinario de Carne de Caça, q.’ fazem aSsada ou Cozida, Sem mais adubos, e Com igual tempero de bredos, quando aquella Não tem, e na falta de tudo, Se Contentão com hum pouco de Sal. (...) De dous modos preparão a Comida de milho, mixoeira, e talves arroz; huãs Vezes o fazem a modo de arros cozido, q.’ chamão Inhafaca, e outras reduzindo-o a farinha Cozida, formão della pelouros, q.’ chamão Sima. Tambem dos mesmos mantimentos fazem a Sua bebida, q.’ chamão Badúa, ou Pombe, que Cá Se assemélha a birá no gosto; mas tem mais Consistencia
PINGOS DE HISTÓRIA DE SOLO AMADO
"..Não há entre elles religião estabelecida, e vivem à ley da natureza, e de Sua Natureza. Adorão a hum Só Deos verdadeiro, q.’ invocão por Mulungo, tendo-o por primeiro muttor de tudo, e não conhecem falsa deidade, adoração quaze de Latria dão a Seos defuntos, chamando-os Muzimos, a quem offerecem nas Suas festas, q.’ há, q.’ São quando bem lhes parece, e Sem ordem alguã, as suas comidas, e bebidas, pondo-as ao pé de alguã arvore dedicada para este ministerio, à qual respeitão, como couza Sagrada, e tambem as Sepulturas. Tem tambem muita veneração ao vento, cujo mottor dizem q.’ he hum como deidade por nome ChiSsumpe.372 ................"(transcrição de livro virtual)
principios inquestionaveis dos naturais da região de Tete
principios inquestionaveis dos naturais da região de Tete
quinta-feira, 30 de julho de 2009
ACTO DE LEALDADE
Ao deixarmos Moçambique, antes da independência, levamos connosco, a seu pedido, dois nossos empregados.
Nunca tinham visto uma cidade tão grande e linda como a cidade do Harare capital do Zimbabwe.(no tempo Salisbury-Rhodesia)
Compramos-lhes roupa e obrigatoriamente calçado. Não era permitido andarem pelo centro da cidade descalços.
Quase se assustavam com a altura dos edifícios e ficavam atónitos com o movimentos de pessoas e carros . Na hora de ponta sentavam-se , no degrau de entrada do jardim, que rodeava a vivenda que alugamos em Eastlea, bairro bem perto da Umtali Road, via de saída para muitas zonas essencialmente residenciais. O tráfego era tanto que os cativava e naturalmente soltavam exclamações genuinamente nhungués, acompanhadas de gestos próprios, até o transito ficar quase parado. As autoridades concederam-lhes "permit" de permanência de um mês .
Tanto Afonso quanto Chaola, pediram-nos para ficar mais algum tempo.Solicitamos a renovação do "permit" para mais um mês, o que foi de imediato deferido. Nesse mês passearam por toda a cidade e até aprenderam a apanhar o taxi,(inexistentes em Tete) nome e utilização completamente nova para eles.
Qualquer coisa desconhecida que não entendessem questionavam-nos até perceberem e trocavam impressões em nhungwe.Confundia-os as máquinas de sandwiches e as de coca-cola e num ...UaAhh patrão riam á gargalhada, com a minha explicação de funcionamento, passando a mão pela cabeça.. A cidade encantava-os e se pudessem até ficariam ali para sempre. A familia acenava-lhes, do outro lado, bem perto do Zambeze, rio que os viu crescer e ter filhos. Havia a machamba para cultivar e a palhota necessitava de arranjos antes das chuvas.
Afonso e Chaola iam deixar a grande cidade, levavam imensas estórias para contarem, e regressar ao seu país, á morena cidade princesa do Zambeze. Informámo-nos do melhor e mais rápido meio de transporte. Pensamos nos "TIR" que diariamente saiam do Harare para Blantyre no Malawi, passando por Tete. Seria o ideal, até porque eles ,conheciam todos os condutores e parariam mesmo no local desejado. Fomos esclarecidos que dentro da então Rodésia ,não era permitido esse género de boleia e as companhias ficariam sujeitas a pesadas multas. Optámos por uma das carreiras que passaria por Nyamapanda mesmo na fronteira da Changara. Aí chegados, atravessariam a fronteira e uma vez em Moçambique, apanhavam a boleia proibida.
Combinado assim, dirigimo-nos á Central de Camionagem de Salisbury (Harare). Centro totalmente utilizado e gerido por africanos, onde não se vislumbrava um europeu. Estacionamos junto ao terminal da Matambanadzo Bus Services.
Enquanto eles se informavam convenientemente e adquiriam os bilhetes, um africano, de fato e gravata, anafado e ar ameaçador , falando shona em tom elevado, apressava-se em minha direcção. Num meio que me era adverso, por ser europeu, manti-me quieto e firme encostado ao carro sem fazer qualquer gesto.
Afonso dando conta da situação anormal, interpôs-se e num dialogo curto e eficaz, resfriou toda a movimentação do bem vestido. Chaola também não ficou parado e não sei, o que lhe disse, que o engravatado retrocedeu e pediu desculpa num "pardon" frio e seco.
Nunca mais soube noticias nem Afonso nem Chaola. Mesmo quando foi a Moçambique ,após a independência em visita e aos anos de familiar.
Fiquei por saber o que disseram ao possível agressor. Jamais esquecerei o acto de lealdade.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
A VISITA DO MINISTRO
TETE~- A VISITA DO MINISTRO
.. a gaiata vestira o seu vestido de chita talhado ao pormenor do seu corpo de tetense,fusão perfeita e graciosa de mistura “euro-indo africana”. A natureza cinzelou lhes as melhores qualidades femininas e físicas de cada origem . Era dia grande na cidade . O ministro estava para chegar. A Av. Aragão de Melo( Rua dos cinemas) triplicara de tráfego, que abrandava e quase parava na Av. Dr..Armindo Monteiro( rua da Cadeia) porque a chita do seu vestido obedecia á irreverência do vento e permitia que a avenida ficasse mais cheia e sorridente.
O movimento só acelerava na verdadeira estrada do aeroporto, que aos poucos ia perdendo esse nome de grande latitude , rebaptizando-a, a conta gotas, do aeroclube.
Esta avenida onde a “gaiata” vivia era uma das mais emblemáticas da cidade. Onde habitavam talvez as famílias mais antigas .
Começava no histórico edifício dos correios e acaba na tímida ribeira que, vinha dos lados da velha maternidade, e só enchia em tempos de chuva.
Estas centenas de metros de chão foram um centro dos mais importantes da cidade. A polícia de segurança montara ali a sua esquadra , contígua á cadeia . O primeiro unico mercado municipal , diz-nos bem onde era o centro citadino, estava transformado nas oficinas da câmara municipal.
Por esta zona iria passar o Ministro, que deviria estar prestes a chegar para dar o - sim - á construção da ponte sobre o grande rio,e de seguida visitar o local de Cabora Bassa.
Zona onde viviam a famílias bem conhecidas , numa sintonia perfeita de diferentes ascendência. Pessoas que os tetenses não esquecem. Os Velosos, os Vieiras , os Macedos Pinto, os Borges , os Lopes e os Henriques . ....Tambem ali viviam três referências que se recorda com saudade, “O” Chaby,”O” Barbas e “O”Ferreira da Silva sempre bem disposto......
...as pessoas não davam muita importância ao nome das ruas e tanto era assim que as casas não tinham numero e não haviam carteiros.... a caixa-postal era um lugar de encontros..
O ministro até era um velhote simpático e a população viera das aldeias mais remotas em machibombos , camionetas ou carrinhas de caixa aberta. a custas da edilidade. Era dia de festa .
Não faltou o batuque nem a fanfarra militar. Os senhores régulos de fardas de caqui perfilavam enquanto os cipaios de cofeó mantinham a população na ordem.
Era este povo que fazia a festa e tornava aquele lugar de chegada um sitio diferente.
As pessoas da cidade vestiam a rigor e era vê-los a suarem em bica e elas exuberantes a ocuparem o melhor lugar para que podessem mostrar a última moda e ficarem na fotografia....
...... a moda podia estar lá estilizada ao detalhe. O lugar poderia ser o mais visível. As pessoas podia ser as mais sociaveis....
...mas os olhares foram para a gaiata morena do vestido de chita.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
POR LÁ ANDAMOS......AS MEMÓRIAS FICAM

....."Enquanto atravesso o Zambeze, olho o casario da cidade, estendido ao longo da margem. Lá ao fundo o Forte de S.Tiago , sobranceiro ao rio, testemunho da chegada dos portugueses no época dos descobrimentos.Pequenos barcos a motor cruzam o rio, ligando as duas margens. Ao longe, a serra da Caroeira qual sentinela da cidade. Vou levar comigo a memória deste céu e dos bandos de pássaros que o atravessavam nas manhãs frescas e nubladas de Junho. Recordarei a beleza dos poentes espectaculares, o ribombar da trovoada, o feérico e esplenderoso alvorecer, lembrar-me-ei, para sempre, do cheiro da papaia madura, do som dos batuques, das silhuetas dos embondeiros, da luz argêntea do luar,dos olhos vermelhos dos noitibós e guardarei no meu coração a terna lembrança de Tete, essa pequena cidade do interior do sertão de Moçambique. O Zambeze abraça-a no correr impetuoso da época das chuvas e cingi-a, docemente, pela estação das secas!" (DOIS ANOS EM TETE-memórias de um alferes expedicionário) Antonio
Espadinha
terça-feira, 30 de junho de 2009
DESPEDIDA DO INTENDENTE CRAVEIRO LOPES
Para haver tantos, duma só vez algo se iria passar fora da rotina diária e tranquila do burgo. Começava-se a notar uma azáfama invulgar para a margem do rio.
O jardim da alfandega estava cercado e no terreiro de chão batido, contíguo ao amuralhado do porto, estendia uma longa mesa que pela tardinha se foi cobrindo de iguarias da melhor qualidade . Não faltavam os rissóis nem os pasteis de bacalhau que faziam crescer agua na boca ao povo, que pelas frestas por onde não podia arregalar muito os olhos, espreitava os tabuleiros cheios sonhando num pic-nic ao som da marrabenta.....
Era a despedida do governador . Só entrava quem fosse convidado. Os fardas brancas com as esposas, vestindo a rigor os comerciantes de mimbas gordas , onde a balalaica fazendo refego, aliviava o botão que estava quase a dizer adeus, e população escolhida, enchiam o recinto do jardim em redor da mesa comprida. Teciam-se os mais elegantes elogios ao homenageado com cariz de verdadeira amizade. A sua simpatia era de facto digna de festa e o seu desempenho exemplar.
Não eram só as comesanas, num palco improvisado junto ao Pelourinho não faltaram jograis ou truões e canções , poesia e discursos. A neta cantou linda canção francesa ... o “ Senhor Velhote” sorriu e comoveu-se e duas lágrimas emocionantes e vádias, soltaram-se... não as limpou , misturadas com o suor secaram .
A festa era de alegria e o conjunto musical não parava , dando aso a um pezinho de dança, para aqueles que ao primeiro compasso, já estão acompanhando o ritmo.
Tanto por fora quanto por dentro do recinto vivia-se um dia diferente. Até que para que tudo acabasse, dentro do programa, meias dúzia de foguetes romperam o céu em direcção ao rio... aí é que foi... minha gente.... a verdadeira festa. Os empregados de mesa desequilibraram-se, nunca tinha vista tais coisa assim voando ruidosamente, atiraram-se para de baixo da mesa e por entre as toalhas espreitavam atemorizados . A desenrolarem-se... iam saindo e de boca aberta mãos “no” cabeça, assistiam ao cair do fogo colorido... mas os que estavam cá fora. Esses , batiam com os calcanhares no sitio mais a jeito, dispersando pelas ruas .. paravam viam o fogo e como kizumbas , orelhas empinadas, regressavam cautelosos e lentos como se tivessem enchido a barriga no banquete.. outros houve que foi necessário que o "chamuare" o “desembrulhasse” da berma do passeio e ...és pá estás vivo pá!!
Já todos familiarizados com os foguetes o último ,de fim de festa, estava arrancar da rampa de lançamento com todo aquela fogaça , só que este foi bomba sem “lágrimas”, o estrondo foi brasa e ... cuecas "não ficou suja" porque “ meu gente” só usava cabedula.
Após os abraços e desejos de felicidades os convidados saíram a população mais afoita aproveitou o que restava e o bando da fardas brancas lá foi tocar na marcha do dia a dia....
Tete gaiata ....
sábado, 27 de junho de 2009
De Tete gaiata morena de lábios doces...
O bart562
...os movimentos independentistas de Moçambique começaram a ter a sua força com o inicio da luta armada pelos anos de 1964 .
...Portugal como colonizador e governado por uma ditadura , não teve a inteligência de, pelo menos olhar para o lado e encontrar uma solução pacifica. A “ideia genial” foi enviar tropas para uma imensidão de território a milhares de quilómetros, para combater, sem entrementes haver um dialogo negociador.
O desenlaçe era previsivel....
Jovens simpáticos que difundiram com alegria a simpatia do povo das diversas províncias de Portugal e espalharam amizade , amando aquela terra, de mente lusa, onde muitos se radicaram.
Em Dezembro de 1963 , Tete e o Batalhão tiveram a sorte de se encontrarem e durante dois anos conviverem . Trocaram simpatias cada qual á a sua maneira. A cidade, abriu as portas e ordenou ás acácias para florirem e ao Zambeze que abrisse os braços para darem as boas vindas a quem,atravessava o grande rio e vinha por bem. Para a população num primeiro contacto era alguém que já se conhecia há longos anos. A sociedade constituída aceita-o como se tratasse de um filho que foi e voltou. Os clubes afiliaram-no e o comercio dava-lhe as boas vindas, com o crédito que merece a boa gente.
O bart estava emocionado com tão boa recepção. Tinha que retribuir e ordenou aos seus elementos que convivessem com toda a cidade , sem discriminação de classe credo ou raça, Obedeceram e aplicaram-se em todas as áreas culturais e sociais.
A sua presença era constante,quase obrigatória, em todos os cantos da cidade . No cinema, fosse á noite ou á matinée de fim de semana. No futebol cedendo jogadores de alto gabarito. No ensino com professores qualificados.No teatro com actores que faziam inveja ao profissionais.
Na imprensa com jornal, tirado a stencil, mas cheio de noticias fresquinhas da cidade.
Na musica com conjunto que animava as festas nos clubes , causador de pé de dança namoriqueiro. No mato com apoio social e cultutal,ensinando a ler e a escrever, ás populações mais afastadas e carenciadas.
O bart entendeu-se bem com Tete , tratavam-se por tu e em cada evento lá estavam os dois, como que casados, a organizarem e a divertiram-se numa união de lua de mel invejável.
Tete, gaiata morena de lábios doces, fizera vestido novo para ir ao clube festejar a passagem de ano e o Bart de fato novo , fiel ao casamento, apareceu com os seus companheiros para acertar os pares e a musica em conjunto que tocava até que a “Alvorada” se levantasse em mais um dia cálido de verão.

O bart562
...os movimentos independentistas de Moçambique começaram a ter a sua força com o inicio da luta armada pelos anos de 1964 .
...Portugal como colonizador e governado por uma ditadura , não teve a inteligência de, pelo menos olhar para o lado e encontrar uma solução pacifica. A “ideia genial” foi enviar tropas para uma imensidão de território a milhares de quilómetros, para combater, sem entrementes haver um dialogo negociador.
O desenlaçe era previsivel....
Jovens simpáticos que difundiram com alegria a simpatia do povo das diversas províncias de Portugal e espalharam amizade , amando aquela terra, de mente lusa, onde muitos se radicaram.
Em Dezembro de 1963 , Tete e o Batalhão tiveram a sorte de se encontrarem e durante dois anos conviverem . Trocaram simpatias cada qual á a sua maneira. A cidade, abriu as portas e ordenou ás acácias para florirem e ao Zambeze que abrisse os braços para darem as boas vindas a quem,atravessava o grande rio e vinha por bem. Para a população num primeiro contacto era alguém que já se conhecia há longos anos. A sociedade constituída aceita-o como se tratasse de um filho que foi e voltou. Os clubes afiliaram-no e o comercio dava-lhe as boas vindas, com o crédito que merece a boa gente.
O bart estava emocionado com tão boa recepção. Tinha que retribuir e ordenou aos seus elementos que convivessem com toda a cidade , sem discriminação de classe credo ou raça, Obedeceram e aplicaram-se em todas as áreas culturais e sociais.
A sua presença era constante,quase obrigatória, em todos os cantos da cidade . No cinema, fosse á noite ou á matinée de fim de semana. No futebol cedendo jogadores de alto gabarito. No ensino com professores qualificados.No teatro com actores que faziam inveja ao profissionais.
Na imprensa com jornal, tirado a stencil, mas cheio de noticias fresquinhas da cidade.
Na musica com conjunto que animava as festas nos clubes , causador de pé de dança namoriqueiro. No mato com apoio social e cultutal,ensinando a ler e a escrever, ás populações mais afastadas e carenciadas.
O bart entendeu-se bem com Tete , tratavam-se por tu e em cada evento lá estavam os dois, como que casados, a organizarem e a divertiram-se numa união de lua de mel invejável.
Tete, gaiata morena de lábios doces, fizera vestido novo para ir ao clube festejar a passagem de ano e o Bart de fato novo , fiel ao casamento, apareceu com os seus companheiros para acertar os pares e a musica em conjunto que tocava até que a “Alvorada” se levantasse em mais um dia cálido de verão.

sexta-feira, 19 de junho de 2009
A ESTRADA DA CIRCUNVALAÇÃO...
Enxerto de Tete Gaiata morena de lábios doces..
A chuva estava prestes a cair. O pó característico da cidade, precisava de ser acalmado. Os relâmpagos já se tinham arreliado lá para os lados do Chingodzi e o Matundo recebiam , numa azáfama de gente a proteger o que era para proteger, as primeiras pingas grossas .
Respingavam no Zambeze e num abrir e fechar de olhos ,o pó, cortesia da cidade ao visitante, abrigava-se e irmanava os primeiros odores. Rebentou uma chuvada de se tirar o chapéu. Por ironia o centro regional do RCM difundia o Meu Chapéu do João Maria Tudela. Até sabia a letra, desafinado, a dois ou três tons “sustenidos ou bemóis” não sei se abaixo ou acima, sentia a como se estivesse bem afinado... nunca tive queda para a musica, mas é do que gosto mais e tocam-me as canções dos anos sessenta...
Segui pela avenida principal , mesmo ao fundo virei á esquerda e praticamente logo á direita . Dobrando a Metalúrgica de Tete do saudoso Senhor António Pires( senhor duma personalidade paradigmática, com um surpreendente dom de palavra) essa estrada que se urbanizou com vivendas apalaçadas , não estava totalmente asfaltada.Deram-lhe o nome de Monteiro Gamito. Dava um prazer diferente , passar os m´curros em tempo de chuva e patinar no matope sob os olhares dos que gostavam de rubricar milandos. A meu destino era passar pelo aeródromo do Chimadzi e entrar na Estrada de Circunvalação.
Estrada que não passava da rua mais popular(no verdadeiro sentido da palavra) da cidade . Ali se misturava a população das diversas etnias, culturas e raças. Centro comercial por excelência, acarinhava o visitante, com lojas de baixo custo e refrescava-o nos bares que proliferavam. Era só escolher onde haveria o melhor petisco ... a Manica ou Laurentina ...mais fresca. O serviço era excelente, fosse,no Bar Alves, Copacabana, Beira Alta ,Estrela....mais atrevido o 2002... e ainda se poderia reparar, saciando-se com uma deliciosa refeição, saborosa, picante ou não, primorosamente confeccionada no restaurante da Pensão Cadima.
As senhoras , sempre á procura do melhor preço, se alegravam com as lindas capulanas do Bazar Cabora Bassa, Casa Eva ou Catogo...
Esta rua era de facto um espanto,por vezes mal tratada,quando nos anos sessenta era o palco principal da vida nocturna. Elo de ligação entre a urbe e o sub-urbano dava-nos lições de boa e sã convivência numa interacção de culturas.
De circunvalação pouco tinha ,mas ,alimentava a simbiose da verdadeira sociedade tetense...
Enxerto de Tete Gaiata morena de lábios doces..
A chuva estava prestes a cair. O pó característico da cidade, precisava de ser acalmado. Os relâmpagos já se tinham arreliado lá para os lados do Chingodzi e o Matundo recebiam , numa azáfama de gente a proteger o que era para proteger, as primeiras pingas grossas .
Respingavam no Zambeze e num abrir e fechar de olhos ,o pó, cortesia da cidade ao visitante, abrigava-se e irmanava os primeiros odores. Rebentou uma chuvada de se tirar o chapéu. Por ironia o centro regional do RCM difundia o Meu Chapéu do João Maria Tudela. Até sabia a letra, desafinado, a dois ou três tons “sustenidos ou bemóis” não sei se abaixo ou acima, sentia a como se estivesse bem afinado... nunca tive queda para a musica, mas é do que gosto mais e tocam-me as canções dos anos sessenta...
Segui pela avenida principal , mesmo ao fundo virei á esquerda e praticamente logo á direita . Dobrando a Metalúrgica de Tete do saudoso Senhor António Pires( senhor duma personalidade paradigmática, com um surpreendente dom de palavra) essa estrada que se urbanizou com vivendas apalaçadas , não estava totalmente asfaltada.Deram-lhe o nome de Monteiro Gamito. Dava um prazer diferente , passar os m´curros em tempo de chuva e patinar no matope sob os olhares dos que gostavam de rubricar milandos. A meu destino era passar pelo aeródromo do Chimadzi e entrar na Estrada de Circunvalação.
Estrada que não passava da rua mais popular(no verdadeiro sentido da palavra) da cidade . Ali se misturava a população das diversas etnias, culturas e raças. Centro comercial por excelência, acarinhava o visitante, com lojas de baixo custo e refrescava-o nos bares que proliferavam. Era só escolher onde haveria o melhor petisco ... a Manica ou Laurentina ...mais fresca. O serviço era excelente, fosse,no Bar Alves, Copacabana, Beira Alta ,Estrela....mais atrevido o 2002... e ainda se poderia reparar, saciando-se com uma deliciosa refeição, saborosa, picante ou não, primorosamente confeccionada no restaurante da Pensão Cadima.
As senhoras , sempre á procura do melhor preço, se alegravam com as lindas capulanas do Bazar Cabora Bassa, Casa Eva ou Catogo...
Esta rua era de facto um espanto,por vezes mal tratada,quando nos anos sessenta era o palco principal da vida nocturna. Elo de ligação entre a urbe e o sub-urbano dava-nos lições de boa e sã convivência numa interacção de culturas.
De circunvalação pouco tinha ,mas ,alimentava a simbiose da verdadeira sociedade tetense...
quinta-feira, 18 de junho de 2009
PESCADORES
...a ponte veio tirar vida ao rio. O batelão encostou e o rebocador foi parar outra paragem. Os velhos barcos que ,constantemente, transportavam as pessoas de uma para outra margem, desapareceram. Apenas ficaram a velhas pirogas dos pescadores que labutavam contra a corrente do velho rio, no seu ganha pão, diário. Enquanto pescavam a família nas margens lavavam a roupa, tomavam banho, sempre atentas a qualquer investida traiçoeira dum crocodilo vadio. Era uma alegria quando a piroga atracava , era sinal que já trazia o suficiente para o almoço e jantar e alguns para fornecer, aquele cliente certo e o mwana já saltava para o ir entregar no cheiro do sagwati.Se, não era este povo humilde, mas que fazia pela vida, o rio não tinha mais nada a não ser a agua que corria velozmente para o mar. A população da cidade nada criara,.... nem sequer um clube fluvial. A mudança no rio era feito pela sua natureza, as ilhas de areia apareciam no tempo de seca e as margens eram varridas ,pelas enxurradas carregadas de tudo o que encontravam pelo caminho.. Por ali onde o saudoso batelão encostava, sentado em cadeira de lona, chapéu de aba larga , rádio bem sintonizado , cana de pesca correctamente colocada , um velho residente.... era o companheiro distante do pescador de piroga.Senhor gentil, educado .. cabelo grisalhos, solitário, contava histórias, como ninguém da sua velha Goa . Orgulhava-se do êxito dos seus patrícios,(como lhes chamava) , sabia os seus nomes completos na ponta da língua e com um subtileza ímpar, descrevia a origem da sua família como se estivesse a conviver e a abraça-la fraternalmente.De fácil convívio,o Sr Dias, oferecia sempre, mesmo que o resultado da sua pesca não fosse farta....
O rio orgulhoso no seu percurso pouco ou nada se importava com a ponte ... a não ser as sua bases que lhe tiraram algum espaço ......
segunda-feira, 15 de junho de 2009
1ºS ANOS 70
PASSAGEM DE ANO
Tete- gaiata morena de lábios doces
... era o último dia do ano.As contas tinham que ser encerradas e certas até ao tostão. A mecanógrafa correntista, morena, escultural, simpática e vistosa, moderna no vestir de mini-saia arrojada para o tempo e meio, já tinha todos os lançamentos efectuados. O borrão esse antipático papel decalcado, que apenas sofria menos porque a cartolina amarela da conta-corrente amortizava o impacto da tecla, dizia-nos todo manchado que não estava certo. Havia de ter que picá-lo e repicá-lo até encontrar a diferença e quanto mais se picava... mais machado ficava, ao ponto de quase não se verem os números.
Na sobre-loja a contabilidade também andava atrás do gato, uma vez que o débito não batia com o crédito.Certamente que os lançamentos contabilísticos não tinham vindo todos para cima.... até que alguém deu com o cesto cheio de correio para contabilizar.
Diz o Henriques lá para cima: - Puxa o fio...
O monta papeis da agência era um fio ou corda,enovelada, com uma mola na extremidade..
A Fátima, jovem bonita,incorporada, vaidosa e sempre alegre, desloca-se com alguma lentidão, debruça-se na sacada , puxa o fio, com voz feminina inconfundível grita para o Paulino:
-É! "muzungo" vê lá se tens mais ... não me faças esperar..
O Paulino, caixa, ex-piloto, despreocupado mais que a própria despreocupação, que pensava e repensava... que conseguiu avariar a máquina certificadora de entregas e pagamentos, para sempre, só porque não estava á mão de semear, dando-lhe trabalho a mais... mandou-a dar uma volta..
Finalmente a Daisy, com a ajuda do Cardoso e Henriques, conseguiu encontrar a diferença.... lá para cima as colunas também já batiam, paralelamente certas.
A camaradagem era excepcional e naquela último dia de ano reforçou-se.Esperava-nos uma mesa no Aeroclube para passarmos a noite, se agora fosse diria para "abanar o capacete", naquele tempo cada ritmo os seus passos, num corpo a corpo por vezes malandro.. até que a maravilhosa aurora, ímpar nos arredores, se mirasse no rio e nos desejasse bom ano novo.
Enquanto encerrávamos tudo de acordo com as instruções superiores e com o brio de bons profissionais, divertia mo-nos com ditos e referencias ,á surdina, das cartas amorosas do chefe, um pinga amores, dos amores falhados e das que se mordiam de inveja. Para disfarçamos estes acontecimentos, falávamos da primeira ida do Zacarias em prospecção e recolha de fundos. Este serviço era efectuado por táxi- aéreo ás cantinas e outros no mato. Na véspera o Zacarias preparou tudo nervosamente e fechou a porta da agência para, no outro dia, cedo vir buscar o indispensável. Nunca tinha ficado com a chave , objecto tão pequeno mas que não o fez dormir toda a noite. Pela noite alta levantou-se e teve que ir empurrar a porta receoso que a não tinha fechado... tornou-se a deitar, mas o sono iria-o acompanhar na viagem aérea. Era o sentido das responsabilidades que lhe afectava os outros sentidos.
Tete pulava e dançava.
O som do ritmo twisteiro vinha do lado do clube de baixo, mais conhecido pelo Sporting. A sala já estava cheia ...havia os mirones que através das janelas, largas e abertas, contabilizavam se havia ou não par que desse para todos. Mal uma das famílias mais numerosas entrou.... morenas tetenses que, com a sua simpatia e voluptuosidade, animavam e davam outro encanto á festa...foi uma corrida ás bilheteiras e o bar esvaziou-se.
De longe , bem para lá da Caroeira, ouviam-se os tambores populares dos campesinos que no seu folclore bem popular, celebravam num batuque descalço, mas saudável, o fim do velho e a vinda de um novo ano...
Tete- gaiata morena de lábios doces
... era o último dia do ano.As contas tinham que ser encerradas e certas até ao tostão. A mecanógrafa correntista, morena, escultural, simpática e vistosa, moderna no vestir de mini-saia arrojada para o tempo e meio, já tinha todos os lançamentos efectuados. O borrão esse antipático papel decalcado, que apenas sofria menos porque a cartolina amarela da conta-corrente amortizava o impacto da tecla, dizia-nos todo manchado que não estava certo. Havia de ter que picá-lo e repicá-lo até encontrar a diferença e quanto mais se picava... mais machado ficava, ao ponto de quase não se verem os números.
Na sobre-loja a contabilidade também andava atrás do gato, uma vez que o débito não batia com o crédito.Certamente que os lançamentos contabilísticos não tinham vindo todos para cima.... até que alguém deu com o cesto cheio de correio para contabilizar.
Diz o Henriques lá para cima: - Puxa o fio...
O monta papeis da agência era um fio ou corda,enovelada, com uma mola na extremidade..
A Fátima, jovem bonita,incorporada, vaidosa e sempre alegre, desloca-se com alguma lentidão, debruça-se na sacada , puxa o fio, com voz feminina inconfundível grita para o Paulino:
-É! "muzungo" vê lá se tens mais ... não me faças esperar..
O Paulino, caixa, ex-piloto, despreocupado mais que a própria despreocupação, que pensava e repensava... que conseguiu avariar a máquina certificadora de entregas e pagamentos, para sempre, só porque não estava á mão de semear, dando-lhe trabalho a mais... mandou-a dar uma volta..
Finalmente a Daisy, com a ajuda do Cardoso e Henriques, conseguiu encontrar a diferença.... lá para cima as colunas também já batiam, paralelamente certas.
A camaradagem era excepcional e naquela último dia de ano reforçou-se.Esperava-nos uma mesa no Aeroclube para passarmos a noite, se agora fosse diria para "abanar o capacete", naquele tempo cada ritmo os seus passos, num corpo a corpo por vezes malandro.. até que a maravilhosa aurora, ímpar nos arredores, se mirasse no rio e nos desejasse bom ano novo.
Enquanto encerrávamos tudo de acordo com as instruções superiores e com o brio de bons profissionais, divertia mo-nos com ditos e referencias ,á surdina, das cartas amorosas do chefe, um pinga amores, dos amores falhados e das que se mordiam de inveja. Para disfarçamos estes acontecimentos, falávamos da primeira ida do Zacarias em prospecção e recolha de fundos. Este serviço era efectuado por táxi- aéreo ás cantinas e outros no mato. Na véspera o Zacarias preparou tudo nervosamente e fechou a porta da agência para, no outro dia, cedo vir buscar o indispensável. Nunca tinha ficado com a chave , objecto tão pequeno mas que não o fez dormir toda a noite. Pela noite alta levantou-se e teve que ir empurrar a porta receoso que a não tinha fechado... tornou-se a deitar, mas o sono iria-o acompanhar na viagem aérea. Era o sentido das responsabilidades que lhe afectava os outros sentidos.
Tete pulava e dançava.
O som do ritmo twisteiro vinha do lado do clube de baixo, mais conhecido pelo Sporting. A sala já estava cheia ...havia os mirones que através das janelas, largas e abertas, contabilizavam se havia ou não par que desse para todos. Mal uma das famílias mais numerosas entrou.... morenas tetenses que, com a sua simpatia e voluptuosidade, animavam e davam outro encanto á festa...foi uma corrida ás bilheteiras e o bar esvaziou-se.
De longe , bem para lá da Caroeira, ouviam-se os tambores populares dos campesinos que no seu folclore bem popular, celebravam num batuque descalço, mas saudável, o fim do velho e a vinda de um novo ano...
terça-feira, 9 de junho de 2009
RUA EZEQUIEL BETTENCOURT
Tete- Gaiata morena de lábios doces..
........das ruas mais agradáveis e simpáticas de percorrer era a Ezequiel Bettencourt. .... um livro aberto do progresso lento, que a cidade tivera e de repente disparou, controladamente,.... bordando-se de lindas residências de arquitectura dos anos sessenta.
O dia estava chuvoso mas quente como quente era o coração das gentes tetenses. Depois de ter visitado o Lar do Estudante, para acertar problemas relacionados com o hóquei, segui pela rua acima. Por mais importância que dêem á avenida principal, a Gen. Bettencourt, a rua Ezequiel de mesmo sobrenome, era a verdadeira coluna vertical da cidade. As duas artérias perpendiculares ao rio , a Av. António Enes e a R. Freire Andrade, encontravam-se com ela em dois pontos cruciais . O cruzamento com a primeira, era emoldurado com edifícios modernos em três esquinas, na quarta um velha, histórica e belíssima vivenda colonial, conhecida pela casa do juiz. Com a segunda a Freire de Andrade, expressava bem, os tempos de outros modernismos nos edifícios simples ,arejados e funcionais onde atento ao cliente o Centro Comercial de Tete, outrora o comercio do Cerejo, olhava a outra esquina do Bar Central, mais conhecido por Melo, refrescava o mesmo cliente. Completava o sitio, o jardim, pequeno, cuidado e orgulhoso das lindas flores que mostrava com vaidade ao visitante....... a desfigurar esta maravilha, na quarta esquina, um quebra cabeças, a Repartição da Fazenda.....
Chovia. Havia compras a fazer, sugeri á família esta zona da rua, entre os dois cruzamentos.... até porque era ali que também se costumava fazer.
Parei frente á Bracarense, a pastelaria mais recente da cidade, pedi um café.... li e reli "A Tribuna" do dia anterior, enquanto a família corria as lojas, obrigatòriamente a Casa Benfica, não por amor clubista, mas pela amizade e simpatia da sempre prestável D. Amina..... a Casa Beirão onde a frescura das hortaliças e da fruta nos chamavam.
A chuva começava a engrossar. e lavava-me destiladamente o carro. Como eu gostava de a ver!... o cheiro que provocava e subia ,por nós acima,da terra chão como um remédio reconfortante... queria sentir bem essa graça da natureza e dei um giro ... espreitei a Foto Flash do João(Kodak), pouco risonho mas conversador , bom homem que estava no atendimento....cumprimentei os sempre atarefados da DETA e dei um alô ao Sousa do Talho. Quando me preparava para continuar a chuva parou e as compras na Casa Geninha também.
Regressamos ao carro. A música "Vim da montanha..para a Cidade" do conjunto João Paulo ajudou-nos a avançar lentamente... ainda não nos tínhamos aproximado do fim da rua a chuva regressava... caía forte, como que a acompanhar a mudança de ritmo que enchia o carro "Elisa ué...Elisa uá" do duo que marcou uma época o Ouro Negro.
domingo, 7 de junho de 2009
OS BARCOS DE 1972
ATRAVESSAR O ZAMBEZE -- TETE/MATUNDO/TETE
......já começara a ter saudades dos velhos barcos, alguns de casco carcomido, pouco faltava para o crocodilo por ali espreitar ou nos acompanhar na viagem, que nos levavam e traziam de margem a margem do grande rio.Do batelão, onde a tripulação a cada viagem, arrumava os carros ,com a simplicidade e perícia de marinheiros sabedores da arte de bem arrumar a mercadoria a bordo, para que a navegação pudesse ser segura e escapasse á traiçoeirice do rio.
...os pilares da ponte há muito que se erguiam no meio do rio.... o tabuleiro estava quase a unir-se . A ameaça ao tipicismo do Zambeze era iminente.
Os dias estavam contados e as travessias iriam apenas ser narradas, por quem as viveu, ou as contemplou das margens, parecendo que as águas os engoliam e o batelão parecia impotente á força da corrente, pior na altura das chuvas....
O velho barqueiro era tudo, capitão, cobrador, comissário de bordo e descarregador.
Travava as discussões...ajudava a descarregar as "cangarras" os sacos de mapira, o "catundo"contendo de tudo um pouco..
...dava a mão á senhorita de capolana domingueira ao saltar não molhasse o pé... era a gente da aldeia do mato, distante, que iria sentir mais a falta do barqueiro..
A ponte majestosa esperava a inauguração por quem certamente não a viria utilizar.
Que seria quando o cimento armado substituísse o seu dia a dia e o seu ganha pão,... a alegria que transmitiam quando a rádio , lá bem perto deles, emitia um ritmo de manear as ancas..
O rebocador encostou e o batelão ficou a ali á espera que nada acontecesse... calaram-se as vozes ... pode vir.... mais um pouco... para a direita... para a esquerda ... em frente.... ALTO.
Nós e o Zambeze deixamos de ouvir esta cantilena...a cidade empobrecia , costumes seculares iam desaparecendo, nem para o turismo serviam... para que se pudesse recordar esse tempo.
Agora a soberba ponte desafiando a natureza, alheia ao passado ... ergue-se rodeada de jardins e monumentos, invade a cidade... abre caminho a todos os que queiram passar... o progresso é feito destas coisas impessoais... e dum dia para o outro torna-se o ex-libris do burgo centenário, onde ao lado dela os vetustos Fortes de S.Tiago e D.Luis , deixaram de ter significado bem como a velha igreja, baluarte do cristianismo, ficam apenas num postal a identificarem um lugar....
sexta-feira, 5 de junho de 2009
´E BOM SABER
"por pouco que Tete, um dos mais antigos assentamentos portugueses no interior de Moçambique,.... só foi elevada a cidade em 1959...
Já, muito antes da chegada dos portugueses, as terras do Alto Zambese, onde se situa Tete, tinham fama de possuir ouro. E os Ãrabes então, percorriam as feiras onde se transaccionava o preciso metal... Isso fez com que ao longo do rio florescessem, em apoio ao comércio, centros urbanos, acabando estes por prática funcionarem como extensão da costa marítima e do seu padrão de laços comerciais e sociais. Em finais do sécculo XV dois destes portos comerciais disputavam a primazia:
Sena, que servia as regões de Manica e Barué; e TETE, situada para lá do disfiladeiro de Lupata, servindo as feiras da Mazoe e monte Darwin.
TETE á semelhança de Moçambique(ilha), Quelimane, Sena e Sofala, ... foi das primeiras povoações ocupadas pelos portugueses no século XVI.Faz parte dos entrepostos da velha colonização portuguesa ...tanto assim que quando, em 1761, TETE foi elevada á categoria de vila ---Lourenço Marques-- ainda nem sequer tinha estatuto de presidio.
Segundo cronistas de Quinhentos : ""a capitania do assentamento de Tete era muito cobiçada pelos homens casados da zona, de entre os quais o capitão, costuma ser escolhido, competindo-lhe recompensar o capitão de Moçaambique pela escolha"" Este facto atesta bem a importância do seu comercio.
Segundo a tradição, a povoação de Tete foi fundada numa ilha do Zambese, mas devido ao assoreamento do rio no canal que circundava a ilha, Tete ficou assente na margem direita do Zambese. O canal que assoreou, e que ainda hoje nas enchentes conduz bastante água, foi dado o nome de Vale das Donas, onde a população autóctone da vila fazia as suas culturas, porque o nateiro arrastado pelas águas tornava a terra mais fertil. A vila foi construida numa pequena elevação.... argilosa a rochosa ... a variedade de cotas impediram a arborização e a terraplanagem das ruas e travessas...por isso, até ao ultimo quartel do século XIX não havia senão carreiros para serem percorridos a pé, transpostos por cima de penedos e através de covas." (sic)
